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Sexta-feira, Setembro 26, 2008
Novamente, outra vez
Solteiros também gostam de provérbios para que possam justificar os fracassos no amor, ou até mesmo, a falta de interesse em manter um relacionamento sério. O pior mesmo é quando alguma ex-pretedente ressurge tal qual fênix e te diz a mesma coisa: na verdade, te dá o mesmo fora. Aí, nada de frases feitas...
Cansado da mesmice profissional, consegui uma licença do meu trabalho para encarar uma viagem ao interior, e assim realizar um projeto, ser algo como um freelancer. Seria alguma coisa nova para mim, e isso me animava.
“Alguns dias respirando ar puro...”
Estava despreocupado com meu coração. Simplesmente por ter certeza de que nada aconteceria.
“Se não ocorre na capital...”
E eu estava disposto a não pensar nisso. Queria crescer profissionalmente, e esquecer do amor.
Assim que cheguei na rodoviária da pequena cidade, fui recepcionado pelo motorista do carro da empresa pra qual trabalharia, que já foi logo me adiantando como era o esquema da cidade e os locais mais badalados.
Realmente beber era o que eu mais queria e, provavelmente, a única coisa que eu teria pra fazer na cidadezinha...
Assim que chegamos no escritório, fui apresentado ao resto da equipe.
- Mas ainda falta uma pessoa. Patrícia. Ele foi resolver um problema, mas já deve estar chegando...
Então fiquei conversando com o responsável sobre o trabalho, dinheiro, esse tipo de coisa, que levou quase uma hora...
Era chegado o momento de ir pra pousada, descansar, comer, tomar banho e por aí vai.
Ao sair para dar uma volta, senti, além do vento frio, alguém me pegando pelo braço. Por reflexo, me assustei e montei a guarda para uma quase utópica defesa.
- Que você tá fazendo aqui?
Fogo na alma. Tremia sem saber pelo quê. Patrícia, minha eterna paquera frustrada. É como eu sempre digo: água mole em pedra dura, tanto bate até que... acaba a água!
- Boa noite! – sorri, tentando me recompor.
- Boa, Pepe. Mas diz, tá perdido?
- Não. Vim fazer um trabalho para uma empresa e...
No decorrer da conversa descobri que ela era a pessoa que faltava ser apresentada a mim. Que azar. Ou seria sorte?
- Finalmente namorando?
- Nem... e você, desistiu daquela idéia de ficar solteira por tempo indeterminado?
- Acabei de sair de um relacionamento. Vim pra cá pruma espécie de retiro espiritual. Na verdade esse foi o maior motivo de eu...
- Vamos trabalhar juntos? – interrompi.
- Trabalhar. Nada de pensar em outras coisas. O chefe já te disse que funcionários não podem namorar entre si? Isso pode abalar o andamento das obrigações.
Triste ou feliz? Mais uma dúvida pra minha prateleira...
- Estaria você me descartando logo de imediato?
Aquele sorriso. Maldito ou bendito, não sei ao certo. Prateleira?
Demos uma volta pela cidade e encontramos parte da equipe comendo uma pizza e tomando cerveja. Era o que eu precisava pra acabar com os fantasmas da paixão e da solidão.
Sentamos todos, rimos, conversamos, comemos e bebemos. Eu não conseguia tirar os olhos de Patrícia. Ela estava mais bonita, mais mulher.
Eu estava me apaixonando.
E isso me angustiava. Era o que eu realmente não precisava.
Inclusive, porque na mesa ao lado um cara tocava violão e entoava aquelas musicas capazes de deprimir qualquer um que sofre de amor.
Como eu.
Os poucos dias que se seguiam foram iguais. Eu, incomodado com a situação e com a forma de como ela era tratada pelos homens não apenas da empresa, como de toda a cidade.
Sim, mas também trabalhava. E bebia. E comia.
Foi quando numa noite típica de cerveja, pizza e violão no nosso boteco, que esperei o momento para que ficássemos a sós.
“É agora!”
Comecei a falar sobre a minha primeira investida, de quando estávamos sentados no carro ouvindo um cd de reggae e ela me disse as músicas eram perfeitas para serem escutadas numa situação como aquela. O que eu fiz? Não, não a beijei. Concordei com ela e virei a cara. Estava desesperado.
- Depois disso a gente se afastou, né Pepe?
- Eu me arrependo até hoje de não ter te dado um beijo naquele momento. Você não sabe o quanto eu me critiquei por ter deixado essa oportunidade passar.
Ela sorriu.
- E é por isso que tô te falando isso agora.
- O que?
- Me declarando. Eu não costumo fazer isso, não sei por qual motivo, mas eu não tô conseguindo mais me concentrar no trabalho. Eu não paro de pensar em você.
Enquanto eu abria o jogo – e meu coração – me preocupava com os outros colegas. Tinha que ser tudo rápido.
- Pepe, você é cheio de teoria. Parece uma mulher falando. Você por acaso tá com ciúmes é?
“Não.”
- Tô.
Expressões silenciosas.
- Quem escolhe muito é escolhido, Pepe,
Ela de novo com a mesma frase.
- Não entendi, Patrícia.
- Você é inteligente. Pense nisso.
A única coisa que fiz foi ficar de pe, puxá-la e dar um beijo medroso, preocupado, tenso, porque alguém poderia ver.
E foi o que quase aconteceu. Por sorte, conseguimos disfarçar e ficou tudo como antes.
Eu estava enciumado, apaixonado, incomodado, confuso.
Tanto que liguei pra Rogério, precisava conversar com alguém.
Na oura noite, ficamos no quarto dela conversando. Toda a equipe reunida. De repente ficamos apenas nós dois.
- Pepe, tô te achando estranho, perturbado...
- É aquilo que te falei, Patrícia. Tá difícil pra mim. Não dá pra ficar apenas ter olhando...
- Você vive apaixonado, Pepe. Sempre foi assim. Isso não é carência? Estamos nós dois aqui... há tempos temos um clima...
- Não acredito que seja isso. Eu te conheci na intimidade. Sei o que você faz antes de dormir, fico encantado te vendo trabalhando, sei até o que você não faz antes de dormir...
Risos.
- Não se apaixone por mim. – disse ela.
“Tarde demais...”
- Nem você por mim.
“BURRO!”
- Pepe...
- Ah, vai... Nós gostamos dos mesmos sabores de pizza. Sempre damos risadas cúmplices ao escutarmos algo estranho ou gramaticalmente errado. Inclusive fazemos bola com o chiclete de uma forma única...
- Nós casamos em muitas coisas.
“Peça ela em casamento então!”
Silêncio.
- Eu na sei o que fazer. Até estou pensando em voltar pra capital. Inclusive até liguei pra Rogério e ele me disse que tô numa situação complicada, digna das quais gosto de me meter.
- Já decidiu o que quer?
- Eu quero você.
Alguém bate à porta do quarto. Um colega entra e pergunta se está incomodando.
Respostas negativas, porém, secas.
Então a fonte secou, novamente, outra vez. Não existe um eu e ela.
Enquanto nosso colega conversava animadamente, saí discretamente. Fiquei olhando pro céu estrelado da cidade do interior. O segurança perguntou se eu estava deprimido. Sorri dizendo estar cansado. Entrei no meu quarto e coloquei minhas roupas em cima da cama.
“Ficar? Voltar?”
Sem saber o que fazer de novo. Minha prateleira estava abarrotada de questionamentos, mas de alguma coisa eu tinha certeza...
Pepe
às 10:06 AM.
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